1.Não vou me preocupar, por enquanto, com o que eu possa dizer aqui. Sempre quis escrever um livro, mas nunca havia reunido forças suficientes nem um conteúdo adequado às minhas expectativas. Agora, livro-me de todas as cobranças de mim sobre mim mesmo, de todo o perfeccionismo, e até mesmo da necessidade de ser integralmente lógico, para escrever este meu primeiro livro.
2.Quais as minhas expectativas? Você pode estar pensando! Fazer sucesso? Tornar-se um grande escritor? Ganhar dinheiro ou fama? Nada disto! Quero apenas trazer da minha experiência alguns poucos rabiscos sobre tudo o que aprendi. Quero registrar e, se possível, trazer alguns questionamentos e conclusões pessoais sobre o maior mistério com que me deparei: a minha própria vida, o que ela significa, sua finalidade, sua essência.
3.Mas, antes de tudo, quero lhe garantir que meus pensamentos, graças a Deus, serão colocados racionalmente e livres de pressões religiosas ou sociais, se é que isto é possível. Sou originário de uma família religiosa, e, hoje, creio realmente que, se Deus existe, não se importará com aspectos sem importância alguma, tais como todos os que nos revertem materialmente. Afinal, o que importa mesmo é nosso estado interior, se de paz e de sinceridade. O que importa é o nosso coração, e nós não podemos escondê-lo de nós mesmos, nem de Deus. Portanto, se vamos rezar, pouco importa para Deus se estamos no banheiro, deitados, no ônibus, ou em frente ao um santuário particular perfeitamente adornado. A única coisa que importa é o nosso coração, nossa pré-disposição a jogar aberto. No mais, creio que o que vai fazer diferença é realmente nosso currículo espiritual, ou emocional, ou sentimental, ou seja, nossa bagagem de experiência e maturidade para nos colocarmos diante de Deus de uma maneira digna, ainda que estejamos arrasados por alguma razão.
4.Sabem, penso que todos temos uma personalidade que define alguma das nossas formas de reação, mas aqui, antes de continuar, temos de separar o SER do PARECER. Esta é uma grande questão.
5.Algumas pessoas tem uma capacidade maior de não revelar seu estado emocional mais do que outras. Isto faz com que, sentindo-se envergonhado, aflito, ansioso etc., não notemos. Assim, ficamos com a impressão apenas da fachada, que cada um de nós faz questão de apresentar sempre com expressões de entusiasmo e força. Esta visão da máscara de cada um cria um viés de percepção da realidade, e este viés é simplesmente impossível de solucionar, pois todos nós, indistintamente, usamos nossas máscaras.
6.Sendo assim, se deduzirmos este viés, este efeito da dissimulação que todos temos, resta a situação real interior de cada um. Ainda assim, variáveis como a personalidade e a vivência influenciarão sobre o estado de espírito. A personalidade, por exemplo, pode fazer com que sejamos mais ou menos ansiosos com relação ao que estamos por enfrentar. E, neste caso, no curto prazo, é impossível mudar o quadro emocional que se apresenta, pois, ao que parece, não podemos nos auto-controlar segundo nossa racionalidade. Se estou ansioso por causa de uma apresentação que devo fazer em alguns minutos, por mais que eu diga para mim mesmo para não ficar ansioso ou preocupado, de nada adianta, pois minhas armas emocionais já estão postas e eu não tenho como reforçar este aparato em tão pouco espaço de tempo.
7.A vivência, por outro lado, é o que pode nos dar um alento, mas não a vivência enquanto tempo decorrido, mas a vivência enquanto experiências vividas. As experiências que nos permitimos viver vão nos dando consciência da nossa insignificância e da insignificância dos outros também, assim como da pouca valia dos prazos, dos títulos e das pressões amparadas exclusivamente pela vaidade ou pela necessidade de preservação da auto-imagem. Então, esta vivência de que falo vai reforçar o espírito para que se possa enfrentar os desafios com maior mansidão.
8.Comigo aconteceu assim, de uma criança carregando os traumas que me tornaram bastante tímido, eu pude me transformar em alguém que, se não absorveu uma característica mais expansiva do tipo do contador de piadas, ao menos alimentou o gosto por discutir assuntos interessantes com amigos, dar aulas de Matemática e de assuntos relacionados à Administração de Empresas. Não me tornei um orador brilhante, mas, com algum esforço, posso até ser um bom argumentador publicamente.
9.Nossa formação é interessante. Senão vejamos. Eu creio que, todos indistintamente, sofremos algum tipo de desgosto no crítico momento em que estamos formando a nossa personalidade. Aqui, tirei algumas conclusões das últimas apresentações sobre a intensidade da atividade cerebral. Um trauma, por exemplo, é uma ligação emocional, a que se corresponde um caminho quimicamente traçado no cérebro, facilmente recuperável subconscientemente, sempre que uma situação presente nova a evocar, fazendo com que esbocemos uma reação condizente com quem somos.
10.Entretanto, dois fatos devem ser levados em consideração: o primeiro é que, apesar de todos nós termos sido de alguma forma expostos a situações traumáticas, podemos deduzir que fomos expostos de forma diferente em quantidade e intensidade, o que, por si, já é capaz de nos diferenciar uns dos outros. A outra questão inseparável é que, cada um de nós tem uma sensibilidade diferente a estas situações. Enquanto uns permitem que elas representem algo de forte impacto emocional, fazendo com que passemos a fazer um grande esforço para fugir de situações semelhantes; outros, por ignorância ou pouca sensibilidade, não dão tanta importância, não permitindo assim que a situação o transforme de forma mais profunda.
11.Estas duas variáveis vão moldar o nosso jeito de ser para toda a vida. Em qual idade isto acontece? Ouvi dizer que é bem cedo, antes dos 7 anos, mas não posso afirmar nada a este respeito.
12.Creio que é sensato admitir que ninguém, considerando-se saudável, nasce tímido ou retraído. Creio mesmo que todos nós passamos por um momento da nossa infância de total liberdade. Acho que é um momento em que não desenvolvemos ainda a consciência sobre nossa auto-imagem, por isso, não nos importamos com isto. Dançamos pelados no meio da sala para quem quiser ver! E não estamos nem aí! Mas chega um momento em que tomamos consciência de que não estamos sendo aprovados. Tornamo-nos sensíveis à maior violência porque se pode passar: a ironia, o sarcasmo, o deboche, a gozação pública. E neste momento, algo muito intenso passa como uma energia se espalhando no nosso cérebro e nós aprendemos a nos proteger, ficando calados e afastados do centro das rodas familiares e, mais tarde, das discussões no ambiente de trabalho, no trânsito, na igreja.
13.Podemos observar, ainda, que apesar de o ambiente familiar, na maioria das vezes, ser o mais inóspito que freqüentaremos em toda a nossa vida, há outros ambientes a nos influenciar a formação emocional, quais sejam os grupos de amigos que aparecem nas proximidades de nossa casa e na escola. Eles também nos fornecerão estímulos importantes. Neste caso, a situação não deixa de ser semelhante, ou seja, o nível de aceitação e as experiências que faremos vão nos dar a precisa informação emocional de como deveremos nos portar.
14.Podemos concluir, desta forma, que emocionalmente somos o fruto destas experiências que fomos levados a viver em tão tenra idade. Você já parou para pensar sobre quão são importantes para toda a nossa vida? Afinal, destas experiências poderemos sair confiantes, altivos, positivos ou, de outra forma, inseguros, inferiores e negativos. Poderemos sair até mesmo com tendência a desenvolver depressão no futuro.
15.Você pode aqui questionar uma coisa: “Mas e a carga genética? Não conta também?” Creio ser pertinente, mas, seguindo uma outra lógica, a carga genética vai influenciar as experiências que viveremos, e estas, afinal, é que vão nos marcar.
16.E então, o que podemos fazer? É importante estarmos dispostos a não nos aceitar, jamais, como estáticos ou imutáveis, ainda que tenhamos uma carga muito pesada de traumas. Temos de nos animar para enfrentar a nós mesmos num processo de melhoria, de crescimento, de auto-desenvolvimento. Entretanto, cuidado! Isto não exclui o bom senso! Não aconselho você a fazer isto por meio de medidas radicais, pois os riscos são enormes.
17.Meu avô me disse uma vez como entrar num rio que não se tem noção da fundura. Isto porque eu não sabia nadar muito bem. Então eu deveria entrar com um pé em terra firme e o outro livre para testar o próximo ponto. Da mesma forma, devemos ir com calma, para degustar cada estágio de melhoria e nos alimentarmos com motivação para continuarmos em frente. É claro que estou falando pessoas que ainda tenham amor próprio suficiente para continuar, pois há casos extremos em que as pessoas se fecham e não readquirem auto-confiança para tentar de novo. Isto eu chamo de trauma profundo, ou forte demais.
18.Algumas pessoas nos marcam negativa e profundamente, e se transformam em carrascos da nossa liberdade, naturalidade e expansividade. Por isto, sentimos a necessidade de nos afastarmos destas pessoas, e isto é necessário, é como recuperar, por um tempo, a liberdade. Por isso, se em casa temos nossa liberdade caçada, é normal sentimo-nos melhor longe de casa, não é lógico?
19.Mas, o que fazer para nos libertarmos de tantos traumas, alguns bastante fortes, que nos impedem de sermos felizes? Esta não é uma boa pergunta? Bem, creio que devemos providenciar o seguinte:
a.Buscarmos atividades que nos complementem os aspectos que temos mais carência, mas sem exageros. Assim, se não faço esportes, busco um que sempre admirei para praticar. Se gosto de música, entro numa aula de canto ou de um instrumento musical. Se gosto de línguas, busco um curso novo. Se gostaria de falar mais e melhor, busco uma atividade em que isto aconteça naturalmente, talvez teatro possa ser um exagero, mas se você quiser encarar, não desista. Que tal um curso de dança de salão? Não parece divertido?
b.Isole-se das pessoas que a deprimem, criticam ou não respeitam sua dignidade humana. Estas pessoas podem ser seus pais ou parentes, conjugue, filhos, seus “amigos” com os quais se acostumou, vizinhos ou colegas. Busque uma nova turma, onde você se sinta bem e possa recomeçar.
c.Não espere resultados no curto prazo. Trabalhe com resultados em termos de anos, e visualize um resultado desejável para quatro ou cinco anos.
20.Mas não se esqueça! Não fique parado! Não aceite tudo da forma que está! Não se veja limitado! Não aceite o julgamento dos outros! Mas busque uma visão de si mesmo(a) o mais próxima da realidade possível, quero dizer, sem uma auto-crítica muito severa nem uma auto-piedade exagerada. Respire, medite, deite-se olhando as estrelas de vez em quando, e tome decisões que te tirem do lugar comum.
21.Sabe! Há muita coisa que vale a pena tentar. Se você está de saída, boa sorte!
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