domingo, 6 de julho de 2008

A essência do diálogo

1.Várias coisas me causam decepção. Uma delas é quando eu percebo que numa discussão em que me envolvo ou que somente presencio, as pessoas não desejam encontrar a verdade, apenas desejam ganhar a discussão a qualquer custo, ou, no mínimo, saírem da discussão confortavelmente.
2.Eu acho um absurdo, mas precisamente classifico tal comportamento como imaturidade. Na verdade é o orgulho ou a vontade de se impor por motivos relacionados ao poder que estão no comando.
3.Creio que não seria demasiado difícil compreender uma coisa. Numa discussão madura, o objetivo deve ser formar um conhecimento lógico sobre algo, em função de diversas variáveis e aspectos a serem considerados até que se chegue a uma conclusão. Então, quanto mais variáveis e perspectivas puderem ser apresentadas, melhor. Quanto mais se puder descobrir o impacto de cada uma, melhor. Quem melhor puder descrever tudo isto, mais tem a contribuir na discussão. E todos devem estar aptos a ouvir e acompanhar a linha de raciocínio de quem expõe uma idéia.
4.Mas não é isto que costumo observar. As pessoas utilizam-se de diversas táticas para vencer na marra. Um deles deve ser destacado: a imposição pelo medo! É o tipo de relação que ocorre entre pais e filhos, ou entre chefe e subordinado. Quem está em posição superior, faz questão de demonstrar e deixar claro esta situação, fazendo com que o outro tenha de submeter a um sistema muito rígido de filtragem precedente às palavras. Ora, o resultado é que os argumentos são prejudicados e o resultado da discussão também.
5.Quem quer filhos ou empregados sem opinião própria? Que não possam demonstrar que nem sempre estamos com a razão? Pessoas livres podem efetivamente ajudar e até evitar prejuízos financeiros. Mas não consigo compreender o apego que alguns têm às demonstrações de poder irracional.
6.Já presenciei situações, normalmente entre mais velhos e jovens, em que estes têm simplesmente sua fala interrompida, sempre que aqueles acham que devem falar algo. E isto pode se repetir várias vezes numa só conversa. É algo assim angustiante!
7.Por outro lado, quando todos têm o mesmo nível num diálogo, podem manifestar seu pensamento livremente e estão dispostos a ouvir, aumenta sensivelmente a possibilidade de se chegar a uma conclusão racionalmente correta, capaz de conduzir o grupo, a família, a empresa a uma decisão segura.
8.Entretanto, creio que ainda persiste um fator que corre em paralelo: a pressa por uma conclusão. Às vezes, alguns assuntos têm de sofrer um processamento mental mais elaborado, uma análise, um estudo, uma busca de mais fontes de informação. Aqui entra uma coisa muito importante: o bom senso. Afinal, esta decisão a ser tomada vai definir o nosso futuro? Então vamos elaborar ao máximo nossos argumentos e conclusões; ou é apenas um decisão sem tanto peso, sobre a qual não dispomos de tempo (ou não compensa perder mais tempo), então reunamos o máximo de considerações possíveis e tomemos a decisão.
9.Nas famílias, às vezes acontece, por exemplo, assim: um casal vai comprar um lugar para morar. Veja só quão importante são as decisões a serem tomadas. Casa ou apartamento? Localização, espaço, arquitetura, acabamento, segurança, garagem, necessidades atuais e futuras. Imaginem o quanto se pode ganhar se todas estas decisões forem feitas por uma só pessoa, pelo casal, pelo casal mais os filhos, pela família mais os pais dos cônjuges, por todos estes mais alguns amigos mais próximos. Depois que a moradia está comprada e que o casal se muda, como é bom descobrir que tudo o que foi discutido preveniu alguns transtornos! ou, por outro lado, como é ruim descobrir que detalhes que poderiam ser evitados agora provocam transtornos. O mesmo pode se aplicar a aquisições importantes, ou a decisões importantes no mundo dos negócios.
10.Entretanto, para alguns, partilhar as decisões significa perder poder, perder o respeito dos outros, não ser considerado como uma pessoa dona do próprio nariz. Confundem um comportamento racional (várias cabeças pensam melhor do que uma), com uma demonstração de fraqueza. Mas você não acha que discutir com familiares e colegas de trabalho não é também uma excelente oportunidade de socialização? de conversarmos mais nas tardes de domingo quando estamos reunidos em família ou de estreitarmos os laços profissionais nas empresas?

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