Um dia, num país distante, estabeleceu-se o poder popular: a democracia. Isto significava que a pessoa a ocupar o poder por meio do voto gozaria de legitimidade para escolher os ocupantes dos principais cargos públicos, aqueles que proporcionavam os melhores retornos. Cabia ao povo escolher dentre diversas opções ruins uma delas.
As forças políticas se organizam com antecedência para a grande disputa pelo poder. São apaixonados e profissionais em discursos bonitos em defesa do povo e, especialmente, dos mais pobres e necessitados. Estes, sempre serão os explorados e ludibriados. Serão os justos e desinformados explorados. Serão os desarticulados sem esperança. A única coisa que lhes restará é o céu, após a morte.
Depois do circo democrático concluído, o grupo vencedor fica alvoroçado, ansioso pelos próximos passos: a divisão dos cargos públicos. Aí entrarão os critérios de acessibilidade a estes cargos, ou seja, a força política dentro do grupo vencedor. Uma variável paralela é a imprensa, que deverá estar convenientemente controlada também, pois, de outra forma, poderá gerar problemas. Mas, na maioria dos casos, as indicações passam despercebidas e são aceitas por todos, especialmente pelos que encontram-se mais próximos dos indicados.
No leilão dos cargos públicos, cada posição tem seu valor mensurado em função do orçamento público a ser manipulado, prestígio público, mídia, remuneração inerente ao cargo etc.
No jogo da ocupação dos cargos públicos, o que conta é a variável política. Conhecimento técnico pode até atrapalhar, dependendo do grupo. Se for um grupo que valoriza o conhecimento, tudo bem; mas se for um grupo que se intitula oriundo do povo para, desta forma, justificar sua baixa escolaridade e competência técnica, pode ser que uma formação acadêmica excelente atrapalhe.
Neste país longíquo, podemos, a grosso modo, dividir as pessoas nos seguintes grupos: grupo que participa da política dominante e que aproveita a oportunidade para enriquecer; grupo dos derrotados que esperam uma oportunidade para ocupar o poder e aproveitar-se dele da mesma forma; grupo de sonhadores que acreditam na força da capacitação e qualificação técnica que ocupam posições técnicas na área pública e privada e efetivamente trabalham (coitados); grupo de espertalhões que, paralelamente às instituições públicas, criam instituições que enriquecem aproveitando-se da massa (exemplo clássico: igrejas); grupo dos trabalhadores e seus dependentes, pessoas que efetivamente produzem riqueza para sustentar os demais grupos.
O circo democrático está armado. Não tem jeito. Dele participa a criança pobre e abandonada que chora, o operário "carregador de piano" que dá duro e que é mal remunerado, os técnicos de nível médio e superior com seus cargos e que lutam individualmente por conquistas na carreira profissional e os que ocupam o poder político e, única e exclusivamente em função de estarem associados à agremiação vencedora nas urnas, sentem-se no direito de aproveitarem a onde e sugarem à exaustão da máquina pública recursos e direitos.
Enquanto um está fadigado pelo sol e pelo trabalho, o outro está estressado e até preocupado com o amanhã e um terceiro sorri de tudo isso, enquanto aproveita o momento e planeja suas estratégias de manipulação.
Não gosto de visões pessimistas, mas não sou cego! A estrutura oferece à maioria a ignorância como opção honrosa, pois, desta forma, pode-se acreditar no trabalho e viver sob o jugo de seus próprios valores. Mas quando tudo mostra-se tão claro, a única alternativa é ver.
Sim, o mundo é repleto de sacanagem! Enquanto os tolos trabalham, os espertos lhes tomam toda a riqueza e ainda zombam! Alternativas? Parece que não há. Afinal, qual a alternativa à democracia?