1.A falta de empatia no ser humano normalmente é muito elevada em determinados aspectos. Um deles em especial é o sentimento religioso. Costumo presenciar situações em que as pessoas colocam a sua presunção e o seu orgulho bem a frente do respeito aos sentimentos religiosos dos outros, e, em conseqüência, ferem estes sentimentos de forma grosseira.
2.Os sentimentos religiosos vêm de uma construção ao longo de uma vida, são profundos e estão ligados ao sistema de crenças e esperanças do indivíduo. Podem ser mais profundos do que o sentimento pelo time de futebol, ou até mesmo pelos familiares. Isto porque estão ligados a princípios que fundamentam os valores morais e espirituais do indivíduo. Estes valores sustentam todo o embasamento comportamental, alimentam as razões do que pode e do que não pode ser feito, apontando erros e promovendo o sentimento de culpa ou de incapacidade diante das tentações do mundo, ou, por outro lado, o sentimento de vitória e de realização diante do cumprimento das recomendações religiosas.
3.Não cabe, desde que isto não fira o direito à liberdade dos outros, classificar a região de alguém como arcaica, ilógica, fraca, impura ou outra coisa qualquer. Discutir religião é discutir sistema de crenças, compreendê-los melhor, fundamentá-los. Se as pessoas se sentirem livres o suficiente para fazê-lo, é uma atitude boa, que promove o conhecimento religioso; porém, as pessoas deveriam prevenir-se de emitir juízos de valor sobre a religiosidade do próximo.
4.Se houver espaço, se for pertinente e se o momento for indicado, apresente sua religião como uma opção, como um sistema de crenças que se diz verdadeiro, ou até mesmo único, mas nunca desfaça da religião do outro, pois isto é ofensivo e costuma promover sentimentos extremados como a raiva, a auto-defesa imediata ou até mesmo uma discussão mais exaltada.
5.Quem tem razão? Quem tem razão é quem se exalta em defender a sua religião quando a mesma é ofendida. É claro que pessoas mais maduras não vão valorizar tanto a opinião de quem emitiu uma crítica contra a religião delas, mas, certamente, sentir-se-ão profundamente ofendidas.
6.O pior é que parece ser inerente às religiões o desejo incontrolável de propagar-se a despeito do sentimento e do direito à liberdade religiosa dos outros. É sempre assim: alguém descobre a religião que transformou a sua vida, a única verdadeiramente de Deus etc. e parte para convencer os outros a também fazerem o mesmo. Neste afã, esquece-se do respeito ao sentimento religioso do outro e passa a, diretamente ou ironicamente, atacar a religião do seu próximo.
7.As formas de ataque mais comuns são o questionamento em busca de inseguranças que dêem uma abertura a uma crítica; a ridicularização dos rituais e dos comportamentos dos membros da religião que se deseja atacar e crítica à origem da religião ou da forma como ela foi concebida.
8.A favor desta abordagem violenta sempre há dentro da própria religião o mandamento de multiplicar fiéis, ou na linguagem mais próxima, salvá-los. A ânsia de salvar o outro serve de desculpa para utilizar-se de todos os meios possíveis para fazê-lo mudar, inclusive ofendendo a sua religião. Ao perceber que não conseguiu seu intento, é comum apelar para o sarcasmo, para a brincadeira maldosa, para a ridicularização do outro, direta ou sinuosamente.
9.As religiões levam algumas pessoas ao fanatismo, especialmente as pessoas muito coerentes e de personalidade forte, as que não aceitam meio termo. Tais pessoas, até mesmo como prova de fé, são induzidas a promoverem a sua própria ou nova religião intensamente. E o fazem diretamente, como atividade religiosa, ou nos contatos familiares ou do trabalho. Nada contra, desde que respeitem o direito dos outros e, especialmente, o sentimento religioso dos outros.
10. Normalmente, as religiões não são à prova de questionamentos ou de críticas à doutrina ou ao comportamento dos seus líderes. Para facilitar o trabalho de convencimento, alguns dos seus doutrinadores promovem livros ou manuais de apologética, que são usados como armas para convencimento. Quando duas pessoas de religiões diferentes se encontram, cada um com um manual de apologética, acabem atirando o conteúdo destes manuais uma contra as outras, o que não leva muito longe e, ao invés de promover o crescimento, promove o rancor religioso além das conseqüências de uma discussão sem fim visando a trazer mais um para a irmandade.
11.Um outro efeito perverso que algumas religiões costumam provocar é o isolamento de grupos de pessoas em função da religião. Se você pertence ao meu grupo, então eu o considero, respeito e até amo; se não, então você não merece consideração. Desconfio destas religiões que apartam. Promovem uma chantagem emocional do tipo, quer participar do nosso grupo? Então tem de ser da nossa mesma religião.
12.Por outro lado, aprecio uma boa conversa religiosa, desde que não queiram me convencer de nada! Gosto de conhecer as diversas doutrinas, vantagens e desvantagens. E acho adorável quando presencio uma conversa equilibrada sobre pessoas de religiões totalmente diferentes. Para mim funciona assim: se elas conseguem conversar sobre religião e permanecer amigas de verdade, ajudando-se mutuamente de com coração, é porque realmente são pessoas de Deus; de outra forma...
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